Ethe.co: Moda Sustentável e Consciente

A indústria do Fast Fashion leva o consumidor a acreditar que terá um relacionamento de curto prazo com suas roupas. Este modelo de negócio deixa de lado o calendário tradicional de moda e passa a operar com micro-coleções que podem somar 52 ao ano. Para Elizabeth Cline, autora de Overdressed: The Shockingly High Cost of Cheap Fashion, as mercadorias produzidas neste modelo conseguem ter altas margens de lucro por operar em um sistema que prioriza alto volume de produção e deixa de lado o capital criativo. Esta inflação da quantidade produzida levou a um super estoque de peças de roupas. Não nas lojas, mas no closet do consumidor.

A formula do sucesso para desvencilhar-se deste sistema doentio já é conhecida: comprar menos e comprar melhor. Mas o que impede as pessoas de seguir esta regra? A constante busca por vestir uma tendência não pode ser suprida comprando menos. Então devemos estar dispostos a gastar mais com cada item, deixando de lado os cheap deals que sabemos que só são possíveis com exploração da mão de obra, correto? Errado. É possível, sim, estar bem vestido sem seguir tendências. É possível estar bem vestido sem gastar muito. E é possível comprar sem explorar mão de obra asiática ou boliviana. É possível comprar slow fashion. E agora esta possibilidade está a um clique de distância.

A jornalista Bruna Pavanelli Daros e a designer de moda Priscilla Bajon perceberam que as pessoas ao seu redor queriam consumir de forma mais consciente, porém não encontravam essa possibilidade dentro do shopping. Em antagonia ao fast fashion, uniram suas ideias com a founder da marca slow fashion Gilda Brand, Bruna Zampollo e os profissionais de TI Lucas Carrilho Pessoa e Kaue Lima; e idealizaram a Ethe.Co, plataforma online que empodera marcas de moda sustentável. Como o nome diz, a ética está presente nos pilares e em todas as ações deste e-commerce, que se torna mais incrível conforme o descobrimos. Conversei com o grupo para o Fashionomia e saí deste encontro inspirada a pensar moda de forma diferente. A mensagem é clara: é possível estar bem vestido sem sujar as mãos de sangue.

 

Fashionomia – O slow fashion toca em vários pontos.  Existem várias formas de moda sustentável: algodão orgânico, mão de obra justa, material vegano, menor geração de resíduos. Com qual rótulo o consumidor se importa mais?

Bruna Z – É meio maluco mas tem gente que levanta a bandeira do slow mas não investiga. Ainda é um desafio encontrar e provar que uma marca é slow fashion, porque não existe uma certificação (como no caso de orgânicos). Não tem como você provar que uma roupa não tem químicos, você confia. E as pessoas vão atrás para ver se realmente não tem químicos? Não vão.

Lá atrás, quando eu decidi não comprar mais em marcas de fast fashion, ficou a pergunta: mas onde eu vou comprar?  

Bruna P – É difícil conseguir avaliar todos os lados da cadeia produtiva, muitas vezes é o terceirizado quem produz de forma não-sustentável. As vezes uma empresa está no máximo do que pode fazer, mas mesmo assim não é suficiente.

Priscilla – Nós fomos no Inspira + (Salão de Design e Inovação de Componentes da América Latina) e tinham muitas marcas grandes presentes, mas até que ponto estão realmente participando deste movimento pela moda sustentável? Ficamos em dúvida.

Bruna P – Por exemplo, existe o Instituto C&A, que tem projetos de sustentabilidade, mas a empresa continua importando da China.  São baby steps. Mas é melhor eles terem 5 camisetas sustentáveis em sua loja do que nenhuma.

Bruna Z – Eu tenho amigas que comentam “você viu que a Zara virou sustentável?”, só porque a marca lançou uma linha de produtos sustentável. Então vão até lá e compram a loja inteira.

Lucas – As pessoas ainda estão um pouco perdidas. Quando comento sobre slow fashion, a postura ainda é de comprar porque ouviu-se dizer que é o certo, mas não questionam muito. A venda do slow fashion não pode ser baseada em um único fator, mas em vários.  Existem pessoas que se preocupam com o meio ambiente, as que se preocupam com trabalho escravo…  Existe, ainda, o grupo que busca uma peça de roupa que poucas pessoas terão igual. Mas as pessoas estão perdidas, não sabem por que exatamente consumir slow fashion ou como. O que marcas como a Zara fazem, ao dizer que estão produzindo de forma sustentável, abre os olhos das pessoas para estas questões. Estamos na era em que há acesso a informação, as pessoas estão descobrindo como suas roupas são produzidas. Agora, para começar a se importar com o que acontece, é um processo e demora.

A Brisa, marca presente da curadoria Ethe.co, cria alfaiataria em seda orgânica com processos de baixo impacto ambiental.

Fashionomia – Vocês acham que o consumidor está preparado para o Slow Fashion?

Bruna P – Não. Tem público, mas ainda não é o grande público. Uma de nossas premissas com o site é divulgar a moda slow, desmistificar o preconceito de que moda ética é sinônima de feira hippie e mostrar que pode ser bonito e de qualidade.

Bruna Z – A gente consome e se enquadra em um perfil de pessoas que vai nos mesmos lugares e todo mundo está vestido igual. Agora as pessoas estão começando a se importar com isso. No slow fashion, você tem algo exclusivo.

Bruna P – Por isso que este é o primeiro passo para as pessoas mudarem de perspectiva. Elas não se importam tanto com a criança trabalhando na China, quanto se preocupam em ter alguém usando a mesma roupa.

 

Fashionomia – As pessoas ficam perdidas. Existem iniciativas como o blog Um Ano Sem Zara, em que a autora ficou um ano sem comprar novas peças de roupas. As pessoas preferem parar de comprar, porque não sabem onde comprar.

Bruna P – É exatamente este o nosso objetivo com a Ethe.co. Em São Paulo temos iniciativas interessantes, mas em cidades do interior ou outros estados é mais raro. Nosso objetivo é chegar nestes lugares, por isso somos uma plataforma virtual.

Lucas – Quando eu falo sobre a Ehte.co, muitas pessoas pensam que é caro e ficam receosas.

Bruna P- Nosso preço é justo e por isso ele varia, temos marcas que vendem cropped a R$30 e outras que vendem bolsas a R$500. Então o que é investido em uma peça de roupa de fast fashion pode ser direcionado para algo sustentável. Quando você fala em sustentável, tem várias vertentes, e uma delas é o upcycling. A Avah!,  por exemplo, compra peças que já existem e transforma em novas. Tudo é feito artesanalmente. E temos a Brisa, que trabalha com seda orgânica, rastreada, faz o tingimento natural…

São diferentes custos envolvidos, por isso temos variedade de preços. Queremos sempre cobrar um preço justo e ético, a ética está sempre por trás do slow fashion. O preço justo também varia. Cada marca trabalha de um jeito e nós tentamos entender suas individualidades.

Lucas- O segundo passo é que as pessoas percebam que pode ser mais caro, mas será um investimento a longo prazo, pois os produtos tem qualidade e durabilidade maior.

Priscilla – Falamos muito em conhecer quem está por trás de nossas roupas. Todos os valores são importantes, mas este dá as marcas transparência, mostra que fazemos um trabalho ético, realmente slow.

A marca Jô de Paula, da carioca Joana de Paula, produz de forma artesanal e ética.

 

Fashionomia – Existem armadilhas no slow fashion?

Priscilla – Sim, tem marcas que se dizem slow, mas fabricam com tecidos encontrados no Bom Retiro e esse tecido é importado da China, onde usou crianças ou trabalho exaustivo para ser feito. O slow fashion muitas vezes nasce em encontros de pessoas que trabalham no mercado de moda, conhecem como os processos funcionam e querem fazer diferente.

Bruna P – A Avah! por exemplo, compra produtos que seriam descartados, o lixo da indústria têxtil. Existem peças piloto que muitas vezes saem errado, a indústria chega a produzir até 5 pilotos. Guarda-se a versão final, todos os outros são jogados fora. Aí a Avah! compra este piloto que iria para o lixo. Pode ser que este piloto tenha sido produzido na Ásia, sim. Mas reinventá-lo já é um passo melhor do que jogar fora. Por isso falamos muito em ser mais humanizados.

O ideal perfeito é um ideal muito grande. Então o pouco que a gente faz, de pouquinho em pouquinho, já é muito melhor do que não fazer nada. Então a gente entende que está todo mundo caminhando e querendo esse ideal lá na frente. Mas não dá para virar a chave e dizer que já chegamos lá. Porque o mundo não está nesse estágio ainda. Estamos em um momento de transição e estamos tentando ser mais slow, tentando pensar na moda de forma mais devagar, e quanto mais gente pensando na moda devagar, mais ela desacelera. Isto não vai acontecer de uma hora para outra.

 

Caminhamos para um futuro colaborativo. Onde ideais unirão paixões e pessoas dispostas a pensar e fazer moda de forma diferente. Já sabemos que a longo prazo, a indústria da moda é insustentável. São iniciativas como a Ethe.co que nos apresentam soluções possíveis para o buraco negro de produção em massa que nós, profissionais de marketing, ajudamos a criar. A partir do momento em que há uma alternativa de consumo que vá na contramão de tudo o que nossa natureza humana é contra – exploração de pessoas e de nosso planeta; não há motivos para não engajar-se nesta revolução por uma nova forma de consumir.

Você está preparado? Visite ethe.co e descubra esse novo mundo.