Sapatos: Entre China e Itália, Como o Brasil pode Sobreviver

Prada, Gucci, Dolce e Gabbana, Versace, Valentino. Todas tem em comum a etiqueta fatto a mano. Calçados italianos são reconhecidos por seu design único e qualidade ímpar.
A legislação Made In, defende a indicação do país de origem como obrigatória, uma medida chave para proteger negócios europeus em diferentes mercados. O made in reforça a conexão entre país de origem e valor de produto, para segurança do consumidor e valorização de marcas locais.
Mesmo com a economia no país em crise, o mercado de exportação de calçados na Itália não enfrenta recessão. Desde 2013, a Itália registra um padrão de consumo divergente entre mercado interno e externo. Enquanto o primeiro beira o colapso, o segundo mantém crescimento saudável. De acordo com a Assocalzaturifici, a Associação de Calçados Italiana, o setor sobreviveu pois a crise de 2008 tirou empresas de menos competitividade do mercado e quando o cenário internacional começou a melhorar, as tradicionais fabricantes de calçados italianos estavam em uma posição vantajosa para diferenciar-se da concorrência, demonstrando sua capacidade em serem resistentes as oscilações econômicas. Por outro lado, empresas menores focadas no mercado interno enfrentam problemas. Tendo em mente a internacionalização da indústria italiana de calçados, a Associação ressalta a importância de exportar para outros mercados.

Produção Artesanal de Sapatos na Itália. Fonte:italianshoefactory.com

Nos anos 70, a Itália dominava a exportação mundial de sapatos. Mas o seu share de mercado diminuiu conforme a globalização possibilitou que outros países competissem com sua tradição no setor. Os custos de produção no Brasil, a época, eram baixos; e o know how trazido por imigrantes italianos e alemães era capaz de oferecer ao mundo calçados a preço menor com certo padrão de qualidade. Até os anos 90, o Brasil saltou de 1% a 12% no mercado de exportação, enquanto o share da Itália diminuia em 50%.
Hoje, a Itália permanece famosa por sua qualidade e design extraordinários, ao invés de focar em volume.
No Brasil, o Vale dos Sinos no Rio Grande do Sul é um pólo produtor de calçados, com técnicas trazidas por imigrantes há mais de um século. Porém, enquanto a Itália é reconhecida por sua qualidade em couro e processo produtivo, o Brasil é visto como alternativa mais barata.
Na cidade de Novo Hamburgo, mais de 70% do capital movimentado provém da indústria calçadista. Nos últimos anos, a China importou mão de obra gaúcha para desenvolver de forma rápida uma indústria até então inexistente. O país é hoje o maior exportador de calçados a baixo custo, enviando mais de 8 bilhões de pares para todo o mundo anualmente.
As exportações do setor no Brasil caíram pela metade entre 2004 e 2009, enquanto a importação de calçados made in China dobrou. As altas tarifas para fabricação interna resultam em um cenário onde compensa comprar da Ásia.

Produção em Massa de Calçados na China. Fonte: ibtimes.com

Os fabricantes do Vale do Sino acreditam que focando em desenvolver seus próprios designs, com ênfase na qualidade e não na quantidade, continuarão competitivos, enquanto a China fará calçados a baixo custo para as massas.
Na fabricante Cavage, em Novo Hamburgo, são produzidos apenas 80 pares diários. Desde sua criação, a marca sempre teve como foco produzir calçados feitos à mão, em poucas quantidades, com alta qualidade e design com inspiração em grandes labels. Em entrevista ao Reuters, Vincente Hoffman, fundados da Cavage, afirma que “O volume de importação de couro demandado pela China faz o material ficar mais escarso e caro em todo o mercado”. Com isso, produzir internamente fica ainda menos viável.
Mas a China é um fato. A questão não é se o Brasil enfrentará esta concorrência por muito tempo, mas como a enfrentará. A saída é tornar-se o mais competitivo possível. O Brasil não possui estrutura para produzir em tamanha escala como a China, então deve fazer o que o país asiático não consegue: ao invés de produzir grande volume de produtos a baixo custo, deve fabricar calçados melhores e mais caros, em menor quantidade.
A Itália sobrevive com a criação de sapatos de altíssimo padrão. A China engole concorrentes com uma produção em escala impossível de reproduzir. Resta ao Brasil encontrar um nicho de mercado no qual possa atuar sem sofrer com as oscilações econômicas.
A resposta pode estar em receber marcas não estabelecidas. Designers emergentes tem dificuldades em produzir na Itália, onde um clube seleto de fabricantes tem clientes de bom relacionamento, como Christian Louboutin e Jimmy Choo. Não é incomum as portas fecharem para o novo empreendedor. Sophia Webster, ao graduar na Cordwainers College, não conseguiu encontrar um produtor italiano que abrisse as portar para sua produção em pequena escala. A resposta foi encontrar um fábrica em Novo Hamburgo que pudesse atender a sua produção. O mesmo aconteceu com San Marina, e outras marcas que não atendem ao mercado de massa, mas também não possuem posicionamento de luxo.
Para manter-se competitivo, o Brasil deve ter um posicionamento claro. Entender que não somos ditadores de tendências no setor calçadista, mas capazes de produzir um produto premium, a preço justo e conforto notável.

Coleção Primavera-Verão 2013 Sophia Webster. Fonte: vogue.com