Overstoring, Varejo Saturado e Comércio Eletrônico

Temos cada vez menos tempo. E quanto deste tempo estamos dispostos a ocupar comprando roupas? Muito pouco.

Gosto de olhar para os Estados Unidos como uma espécie de oráculo do que pode acontecer no Brasil futuramente. Muitos comportamentos hoje presentes em nosso país já aconteciam na América do Norte há anos, pois somos ambos progressistas e mais apegados a evolução que a tradição.

Em 1995, a Amazon e o eBay iniciaram suas atividades nos Estados Unidos e, ano após ano, consumidores perderam o medo de comprar online. Hoje, um fenômeno parecido acontece no Brasil: 2016 apresentou queda de 7,3% em vendas no varejo tradicional, enquanto o comércio eletrônico cresceu 15%. No ano passado, o número de brasileiros que compram periodicamente online (38,2%) ultrapassou os que consomem em loja física (30,9%) pela primeira vez. O menor custo de uma operação de e-commerce traz vantagem competitiva e os consumidores estão mais cautelosos a respeito de onde investir seu dinheiro.

Nos Estados Unidos, acontece um fenômeno batizado de overstoringo “excesso de lojas”. Muitos lojistas estão amarrados a contratos de aluguel de 15 a 20 anos. A marca JCPenny apresentava queda de 25% ao ano quando anunciou, no fim de 2016, que fecharia 138 pontos de venda, mas 900 lojas permanecem abertas e vendendo pouco. A Abercrombie & Fitch fechará 60 lojas neste ano, mas permanece com 800 pontos de venda operando. A Macy’s fecha 68 portas mas mantém 700 abertas. Em 2016, o comércio online representou apenas 8,3% do total do mercado de moda nos Estados Unidos, mas de acordo com o US Census Bureau, a internet permite aos consumidores comprar de forma como nunca antes fizeram, evitando longos dias desperdiçados em enormes lojas. A Amazon é prevista para ser a maior varejista de moda americana já no ano que vem.

O mercado americano está saturado em varejistas de moda e ao mercado brasileiro, soma-se um cenário de crise. No mês passado, o CEO da Urban Outfitters, Richard Hayne, comparou o que acontece no varejo de moda ao que ocorreu no mercado imobiliário em 2008: a expansão excessiva nos anos 90 levou o país a ter hoje 6 vezes mais o número de lojas per capita que a Europa e o Japão.

É provável que por volta de 2030, existam menos lojas físicas (do que online) e que sejam voltadas a oferecer experiência de marca. O estudo The Future of Retail, realizado pelo Synchrony Financial prevê que o efeito de satisfação imediata, unido a personalizações em loja a partir de tecnologia, é o que manterá os poucos espaços físicos operando.

 

“A questão é: se você não precisa ir até certo lugar para conseguir comprar coisas, o que faz você ir até esse lugar? É isto o que chamamos de ‘rearranjar’ as coisas: a experiência, assistência, diversão. É deixar de realizar apenas transações e firmar relacionamentos.”

Ryan Matheus, futurista.

Aplicativos dentro da loja onde é possível encomendar imediatamente um produto, provadores interativos, realidade virtual, pesquisa de satisfação ao escanear uma etiqueta. O futuro é cada vez menos separado entre online e off-line, dirigindo-se a uma aliança entre o melhor de cada um. O objetivo deixa de ser apenas a satisfação do consumidor e passa a ser o seu entretenimento. Afinal, temos cada vez menos tempo.

Provador da Ralph Lauren em Manhattan