Custódia e a Busca pela Verdade em Marcas

Vivemos um momento onde consumir por consumir está fora de moda. Cada vez mais, pessoas buscam marcas cujos valores compartilham. Exemplo desta tendência por vestir não apenas uma roupa, mas uma verdade, é a marca Custódia, fundada por Fernanda Custódio e seu companheiro Fernando Henrique em 2015.

O casal partiu em uma imersão cultural ao sertão nordestino, onde inspirados pelo design característico da região, decidiram desenvolver sandálias, bolsas e acessórios em couro produzidos por artesões locais. Observando que os matriarcas de suas famílias vestiam colares, pulseiras e adereços ligados ao universo do Candomblé e em homenagem a este rico passado, foram incluídos penduricalhos ao portfólio da marca.

Sapatos e colares Custódia

Em tempos antigos, quando diferentes grupos africanos encontravam-se e faziam comércio e troca de materiais exóticos, estes eram considerados prêmios de status e eram incorporados em diferentes tribos e suas vestimentas. Nasce aí, a partir do século XV, a popularidade de pequenas miçangas feitas em vidro. Criavam-se elaboradas roupas, acessórios e até sapatos. As cores e estampas distinguiam as tribos entre si e os estilos de miçanga diferenciavam as pessoas a partir de seu gênero, idade e status social. Os penduricalhos da Custódia resgatam a simbologia do Candomblé e seu discurso estético. “Nossos penduricalhos, nome carinhoso para as bijuterias, começam a nascer para preservar a memória e completar as histórias que desejamos contar”, explica Fernanda. 

A Custódia assume um compromisso com o afro empreendedorismo. Os artigos em couro são produzidos por artesões nordestinos e o material para os penduricalhos é fornecido pela avó de Fernanda. Inspirada por ela, conhecida como Mãe Juju, a idealizadora da Custódia percebe que o processo de criação da marca foi importante para que ela entendesse sua identidade negra, em um processo que a faz encontrar um orgulho cada vez maior em sua ancestralidade.

Mãe Juju, inspiração e fornecedora

O racismo existente no Brasil muitas vezes bloqueia o acesso a informação sobre a origem das culturas do continente africano. Evidências sugerem que peles de animais e tecidos feitos a partir de cascas de árvore foram os primeiros materiais usados para a construção de roupas na África. Muitas culturas desenvolveram técnicas de tecelagem e produziam tecidos belíssimos. A ráfia, feita a partir de uma espécie de palmeira, assim como o algodão, eram materiais comuns usados para tecer. Homens e mulheres trabalhavam juntos para produzir tecidos para roupas, com homens responsáveis pela tecelagem e mulheres decorando o tecido. Talvez os tecidos mais conhecidos fossem a seda produzida em Gana e os tecidos de Mali tingidos com lama, com suas estampas características em tons de marrom e bege. Diferentes versões de vestidos com caimento solto são usados em regiões da África. Na Nigéria e no Senegal, o boubou é popular. Outros vestidos similares incluem o agbada e riga na Nigéria, o gandoura ou leppi nos Camarões e o dansiki no oeste africano. Estilos na África do norte refletem a influência muçulmana, especialmente os berbers no Marrocos e outros países na faixa deserta.

A influência africana na moda brasileira é perceptível em nossas estampas, roupas fluídas e paixão por acessórios. É todavia superficial limitar o olhar sobre a estética africana ao esteriótipo, quando consideramos o tamanho deste continente e sua vastidão em culturas. Fernanda explica o motivo por termos uma visão padronizada em relação a Africa, ao invés de examinarmos sua riqueza em variedades.

“O problema com esteriótipos não é não serem verdade, mas serem incompletos.”

Chimamanda Adichie, autora Nigeriana

“Acredito que a moda brasileira sofre influência a partir da estética africana e é necessário entender o porque nossa visão é tão limitada sobre o assunto. Nosso país passou por um processo catastrófico de escravidão, foram mais de 400 anos de apagamento de identidade, onde diferentes populações foram misturadas em navios negreiros a caminho do Brasil (muitas delas eram rivais no continente africano). Acreditar que a África se resume a safári, estampas tribais e animal print é um braço do racismo, é superficializar e rotular uma cultura para apenas entretenimento comercial. É preciso ir além das histórias que achamos que sabemos.”

Em seu livro A Moda Imita a Vida, André Carvalhal afirma que “não é sem razão que cada vez mais as pessoas querem saber o que existe por trás das marcas. Estão mais sensíveis a forma como pensam, como se comportam e a sua história. Estão a procura de estabelecer conexões mais profundas, e, principalmente, buscando marcas que sejam ‘de verdade’ para se relacionar.” A Custódia não só possibilita a conexão entre pessoas e marca, mas um vínculo entre a identidade pessoal de quem compra seus penduricalhos e a carga histórica e cultural presente em seus produtos.

“Percebo que as pessoas que chegam até a Custódia querem se conectar com os produtos, não consomem apenas por necessidade, toda compra tem um propósito. Acredito que esta seja uma tendência e uma necessidade global, é importante fomentar o pequeno produtor, estabelecer conexões reais e sentir responsabilidade no impacto social.

A Custódia nasceu pra contar, recontar, resignificar, aprofundar e dismistificar histórias. Nosso trabalho com as miçangas é apenas um desculpa pra contar essas histórias.”

Os sapatos, acessórios e penduricalhos da Custódia podem ser encontrados na Loja Saravá, em Paraty, e no Instagram da marca @custodia.

“Custódia é o resultado de um mergulho profundo em autoconhecimento.”

Fernanda Custódio, idealizadora.