Eco Zara: o Paradoxo entre Sustentabilidade e Fast Fashion

Em 2015, a Inditex, fabricante da marca de fast-fashion  Zara, produziu 1.177.784.343 unidades de roupas. No ano seguinte, a Zara anunciou o lançamento da Join Life, uma linha desenvolvida inteiramente em algodão orgânico, lã reciclada e lyocell, tecido feito a partir de fontes renováveis.

Para muitos, o lançamento foi visto como uma jogada de marketing, alegando-se que a Join Life representa muito pouco dentro do portfólio da marca, que continuará contribuindo para um sistema insustentável de produção onde pessoas e o planeta são explorados. Subestima-se o poder da Zara.

A empresa fundada por Amancio Ortega revolucionou o formato tradicional de produção de moda. Hoje, conglomerados de luxo como Dior e Chanel lançam 6 coleções ao ano, vestem celebridades com roupas que foram desfiladas poucos dias antes de um evento e garantem créditos em mídia impressa antes da coleção chegar em loja. Isto acontece absolutamente por causa da Zara.

Com um sistema excelente de captação de dados, a Zara recebe diariamente, de suas 7.096 lojas no mundo todo, feedbacks em relação a cada produto presente na loja. Isto gera um sistema de produção baseado em demanda, evitando estoques acumulados e desperdício de material. Na Zara, há poucas peças em promoção, pois a loja recebe apenas o que tem potencial para ser vendido. Por isto, a margem de lucro pode ser praticada em seu total. O sistema de fabricação elaborado por Ortega tem os olhos voltados para as ruas e um dos departamentos com maior investimento na corporação é o de captação de tendências. O que é desfilado hoje em uma fashion week estará nas araras da Zara daqui a 6 semanas e cabe a marca que mostrou-se na passarela apostar corrida com esta gigante do fast fashion para não perder vendas.

Como tudo o que a Zara faz, a coleção Join Life foi produzida na medida certa. Uma coleção capsula, para sentir a resposta do público e avaliar seu potencial. Mesmo que representando uma minúscula fatia do portfólio da marca, é um passo na direção certa para a marca influenciar toda uma cadeia produtiva que hoje opera de forma pouco saudável.

Para receber a etiqueta Join Life, a peça deve ser produzida a partir de energia renovável

Para ganhar a etiqueta Join Life, a peça deve seguir alguns parâmetros internos: o material têxtil deve ser reciclado ou de fonte renovável, como poliéster reciclado, algodão orgânico ou tencel; e a fábrica produtora deve ter reciclagem de água. A auditoria dos fabricantes é feita pela própria Inditex, provavelmente não de forma tão rigorosa como se feita por uma corporação externa, mas ainda assim, um passo em direção a evolução da responsabilidade ecológica de sua cadeia produtiva.

O foco dos esforços da Inditex em direção a uma produção sustentável são na eco-eficiência da produção, com redução do consumo de eletricidade e emissão de gases na atmosfera. De acordo com o relatório anual da empresa, em 2015 foram gerados 1.831.142kg de resíduo têxtil e 11.065.644kg de resíduo em embalagens. Enquanto resíduos em papel podem ser reciclados, o desperdício em tecidos é razoavelmente controlado através de parcerias com organizações sociais, universidades e pesquisadores que visam obter maior sustentabilidade e menor desperdício na cadeia de produção.

A polêmica em torno da inciativa bem intencionada da Zara, diz respeito aos esforços da Inditex em relação a uma produção ecologicamente sustentável não estarem alinhados com uma cadeia produtiva socialmente saudável. A exploração da mão de obra é o pilar da política de preços de qualquer fast fashion e a Zara virou sinônimo de mão de obra escrava. Mas há um motivo para milhões de Euros serem investidos em reuso de recursos e respeito a natureza, enquanto o salário do chão de fábrica é ignorado: a etiqueta eco-friendly vende mais do que um selo provando que o salário da costueira é justo.

Os esforços de marketing de diversas empresas dos mais variados segmentos em busca de produtos ecologicamente corretos, criou um elo com o consumidor, que respeita os selos verdes e está disposto a pagar a mais por eles. É bonito ser orgânico, é bonito ser sustentável. Porém, o consumidor final ainda não está disposto a pagar a mais por um vestido, por saber que ele foi costurado por um trabalhador que recebeu salário justo.

De qualquer forma, a iniciativa da Inditex em direção a um futuro mais verde pode ser aplaudida. Esta gigante da moda rápida já teve o poder de revolucionar uma indústria no passado e torcemos para que tenha a força de influenciar os processos produtivos no futuro.